[Porto - Estação de S. Bento, 30 de Agosto de 2009, FF]
"Às vezes eu pensava em ti (...). Pensava o que seria feito de ti, se terias acabado o curso, se terias um trabalho, se terias emigrado, se te terias casado (se terias filhos....). Pensava, mas sem pensar muito. Cada um de nós segueria a sua vida e elas eram em tudo diferentes: os amigos, o trabalho, os lugares por onde andávamos, mais de meia geração a separar-nos. Lá longe, isso não fez assim tanta diferença, mas aqui fazia toda. (....) Tirando o silêncio, a solidão e o espaço, tirando o tempo gasto nisso, todo o resto do tempo que não fosse passado a construir coisas novas parecia-me um desperdício de vida. Consumia-me uma febre insana de caminhar sempre em frente, ao mesmo tempo que tentava preservar, como coisa preciosa, a memória de todos os dias felizes que tinham ficado para trás. (...)."
Miguel Sousa Tavares in No teu deserto - Quase Romance